Thoughts from Places: Caminhos sem fim

Levantei-me de manhã, sonolento, comi, vesti-me, mirei a rua pela transparência da minha janela, resignei-me, peguei no guarda-chuva e saí. O tempo estava pior do que aparentava, senti um arrepio que confirmou o frio que me avassalava marcadamente. Caminhei, como todos os dias, em direção à escola, porém encolhido de baixo de um pequeno chapéu algo torpe e descabido. Enquanto passava pela escola primária pela qual passo sempre, levantei a cabeça e olhei para o céu. Pequena gotículas de chuva que se escapavam à vedação de tecido feriam-me a cara e arrancaram-me pequenas lágrimas de dor dos olhos, contudo continuei a fixar o céu. Era azul escurecido, deveras nublado. Uma inspiração. Nesse momento passaram-me várias coisas pela cabeça. As mais marcadas eram as de como tinha falhado em várias ocasiões recentemente. Por essa fração de segundo fui único no planeta e a minha individualidade entristeceu-me. Baixei a cabeça e continuei a andar mas com um pedacinho de céu sempre no canto do meu olho. Cheguei à escola. Observei todas as pobres almas que sem resistência caminhavam futilmente para mais um dia das pobres vidas. Por momentos senti-me superior, como um deus, mas não tardei a perceber que a ilusão me tinha tomado a racionalidade e que não passava de mais um daqueles que cinco segundos atrás tão veemente criticava. Pior… eu era pior do que os que criticava porque aceitava a coisa ainda que estivesse consciente de tal. Sentei-me e ouvi uma hora e meia de algo que até parecia interessante mas que parcialmente ignorei, não por ignorância ou desleixe, mas simplesmente porque o meu cérebro me impingia outros pensamentos menos agradáveis. Levantei-me e não tardei a sentar-me outra vez. Porém, para minha felicidade, fui congratulado com um tema que me invadiu a cabeça e afastou, ainda que momentaneamente, tais incongruências da vida. Saí. A chuva e o frio tinha dado lugar a um solitário Sol que me chuviscava com pequenas gotas de luz e calor. Senti-me bem. Percorri o caminho exato que tinha percorrido momentos atrás na direção contrária, mas desta vez ausente de dor. Comi, dormi, estudei, estudei mais, comi outra vez e aqui estou, numa posição que combina um sentar desajustado com um deitar desconfortável. Que combinação estranha, mas cujo resultado sabe tão bem.

É nestes dias que, num conforto temporário do meu quarto, concluo sobre a pseudo-agradável experiência da vida. É claro que vos omiti vários pensamentos, sensações, ações e experiências que tive oportunidade de sentir hoje, não por impropriedade, mas porque assumo que tenham vocês também uma vida para viver que não a minha. Porém, o que de mais importante aprendi hoje foi que falhamos sempre. Sempre. Mesmo que ganhem todas as lotarias, consigam domesticar o coração de uma moça que perseguem há bastante tempo e se apercebam que têm uma vida cheia de pessoas e amigos que mutuamente adoram, falham. E porquê? A explicação curta é que nada é perfeito… A comprida? Porque mesmo que vos corra bem há sempre algo que vos corre mal. Não falo em probabilidades, mas sim que estamos sempre dispostos a encontrar incoerências na nossa felicidade, porque no fundo no fundo a nossa felicidade é a constante busca por uma ideia, um pensamento ou sensação, à qual ironicamente chamamos de “felicidade”, mas que não passa disso, uma ideia, pensamento ou ilusão. E neste momento paro, cesso tudo o que pensava para chegar a uma simples conclusão: sou um falhado. Não fiquem tristes por mim (é só uma expressão, não espero que fiquem mesmo tristes por mim…), não podia ser melhor assim. É por ser um falhado que percebo que todos somos, dentro de alguma extensão, falhados. E não me resigno à coisa, mas aceito-a com prazer, pois para mim significa que falta algo e que quero esse algo. É como o som de uma campainha: por um lado significa que acabou alguma coisa, por outro começou outra…

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